05/11/10

A Volta do Correio

Naquela altura qualquer coisa fazia as delícias da petizada.
A volta do correio era uma delas. Era uma epopeia diária que levava uma magote de cachopos atrás do carteiro pelas ruas da Chança.
Naquela época o carteiro era o Mestre Daniel.
Daniel da Graça Fernandes, carteiro, mecânico e vendedor de motas e bicicletas, caçador nas horas vagas. Grande contador de histórias. Era também o nosso herói numa aventura que começava na Rua de Abrantes e que palmilhava todas as ruas da Chança.
Com a sua bolsa de cabedal a tiracolo ia coleccionando cachopos ao longo do caminho.
Eu apanhava-o  na Praça. Descíamos pela Rua do Norte e tomávamos a direcção do Rossio. Dávamos a volta aos Baldios e regressávamos aos correios. A volta era tanto maior quanto maior fosse o volume de cartas.
As portas não tinha número. O Daniel conhecia todos os nomes.
Isso intrigava-me. Tornava-o uma espécie de super-herói com uma super-memória.
Outro dos seus poderes era atirar as cartas por baixo das portas. A carta batia no chão e deslizava rapidamente para o interior da habitação.
Eu cheguei a conseguir essa proeza.
Mas a cereja no topo do bolo vinha no fim da volta.
O Daniel tinha uma moto grande, preta (se não me engano era uma Honda, mas não posso garantir), de alta cilindrada.
Por vezes ele levava um de nós à Cunheira.
Era um passatempo de Verão. As féria grandes eram mesmo grandes, e davam para tanta coisa...
Bons tempos.

P.S. É inevitável voltar a falar nos Correios e no Mestre Daniel.
Até um dia destes.

03/11/10

O meu amigo Álvaro

O tempo vai passando e a nossa memória vai arquivando momentos, pormenores, pessoas que fizeram parte do nosso passado e que neste momento estão fechados em parte incerta do nosso subconsciente.
Nos últimos tempos tenho tentado fazer um exercício para trazer de volta alguns desses factos, dessas pessoas e histórias que permanecem adormecidos, inertes, e que por vezes aparecem, através de um cheiro, de uma conversa ou de um sonho.
Talvez esta memória tenha pouco significado para a maior parte das pessoas que possam ler este post.
No outro dia lembrei-me do meu amigo Álvaro.
Não me perguntem porquê.
Uma imagem, uma frase de um livro, não interessa...
O Álvaro era um cachopo que vinha passar as férias grandes a casa da avó.
Foi há mais de 30 anos, mas eu continuo a lembrar-me da miúdo.
Era neto da D. Hortense. Não me lembro do nome do avô, mas morreu por essa altura.
A casa da avó tinha um quintal que se enchia de cachopada na brincadeira.
Nunca conheci os pais dele. O pai era comunista e eu imaginava que devia estar escondido, ou preso ou outra coisa qualquer. Ele chamava-se Álvaro, como o Cunhal.
O meu avô chamava-lhe Álvaro Cassuto, como o Maestro.
A determinada altura o Álvaro deixou de aparecer. Durante anos não tive notícias dele. Entretanto a velhota morreu e com o passar dos anos esqueci que o Álvaro existia.

Passaram 10 anos.
Um dias bateram-me à porta e disseram-me: está ali um rapaz com o cabelo comprido à tua procura.
Um rapaz de longos cabelos louros que sorria para mim.
Era o Álvaro.
Passados uns instantes reconheci o sorriso da criança que conhecera outrora.
Tinha vindo a casa da avó e lembrara-se de perguntar por mim.
Tinha emigrado para a Russia. Lembramos os tempos de criança. E cada um seguiu o seu caminho.
Lembro-me, muito vagamente que havia uma fotografia com os amigos lá da rua.
Nessa foto estariamos nós, o Ricardo e o João Paulo (que Deus têm).
Nunca mais soube nada dele. Provavelmente continue na Russia. Ou talvez não.
Talvez ele possa ler isto onde esteja. Também já passaram mais de 20 anos desde a última vez que o vi. Talvez ele nem se lembre da Chança.
Ou talvez não.