03/11/10

O meu amigo Álvaro

O tempo vai passando e a nossa memória vai arquivando momentos, pormenores, pessoas que fizeram parte do nosso passado e que neste momento estão fechados em parte incerta do nosso subconsciente.
Nos últimos tempos tenho tentado fazer um exercício para trazer de volta alguns desses factos, dessas pessoas e histórias que permanecem adormecidos, inertes, e que por vezes aparecem, através de um cheiro, de uma conversa ou de um sonho.
Talvez esta memória tenha pouco significado para a maior parte das pessoas que possam ler este post.
No outro dia lembrei-me do meu amigo Álvaro.
Não me perguntem porquê.
Uma imagem, uma frase de um livro, não interessa...
O Álvaro era um cachopo que vinha passar as férias grandes a casa da avó.
Foi há mais de 30 anos, mas eu continuo a lembrar-me da miúdo.
Era neto da D. Hortense. Não me lembro do nome do avô, mas morreu por essa altura.
A casa da avó tinha um quintal que se enchia de cachopada na brincadeira.
Nunca conheci os pais dele. O pai era comunista e eu imaginava que devia estar escondido, ou preso ou outra coisa qualquer. Ele chamava-se Álvaro, como o Cunhal.
O meu avô chamava-lhe Álvaro Cassuto, como o Maestro.
A determinada altura o Álvaro deixou de aparecer. Durante anos não tive notícias dele. Entretanto a velhota morreu e com o passar dos anos esqueci que o Álvaro existia.

Passaram 10 anos.
Um dias bateram-me à porta e disseram-me: está ali um rapaz com o cabelo comprido à tua procura.
Um rapaz de longos cabelos louros que sorria para mim.
Era o Álvaro.
Passados uns instantes reconheci o sorriso da criança que conhecera outrora.
Tinha vindo a casa da avó e lembrara-se de perguntar por mim.
Tinha emigrado para a Russia. Lembramos os tempos de criança. E cada um seguiu o seu caminho.
Lembro-me, muito vagamente que havia uma fotografia com os amigos lá da rua.
Nessa foto estariamos nós, o Ricardo e o João Paulo (que Deus têm).
Nunca mais soube nada dele. Provavelmente continue na Russia. Ou talvez não.
Talvez ele possa ler isto onde esteja. Também já passaram mais de 20 anos desde a última vez que o vi. Talvez ele nem se lembre da Chança.
Ou talvez não.

1 comentário:

Maria disse...

Que bom ver este blogue activo!
Sempre que tenho oportunidade, dou aqui um saltinho,leio e releio e sempre encontro algo,que mesmo não sendo actual,me dá grande prazer.
Saber e conhecer da nossa terra, o que temos presente na nossa memória e o que os outros nos fazem avivar, como é este caso!
Já agora fico espera de saber desse Álvaro e com a esperança que ele, assim como tantos outros, possam através deste blogue reencontrar velhos amigos e reviver memórias e tempos, que apenas perdidos no tempo se encontraram...
Um abraço e bom trabalho